O iPad vai para a hagiografia de Jobs?

SÃO PAULO – Com jeito de iPodão, o iPad pode virar um Newton.

Reputações, no mundo da tecnologia, têm a consistência de um pudim. Nada é realmente firme. A não ser, é claro, que se trate de Steve Jobs. Com um passado de inovação a qualquer prova, ele se safa em quaisquer circunstâncias. Quem mais poderia apresentar um tablet — uma categoria de computador pessoal que existe há mais de 20 anos sem qualquer sucesso — como uma revolução de 2010 do Vale do Silício, como Jobs fez no dia 27 de janeiro? E ainda por cima um tablet sem porta USB, sem suporte a Flash, a multitarefa, sem câmera… Se Steve Ballmer, da Microsoft, tivesse tentado algo semelhante, seria execrado. Mas Jobs, como é Jobs, tem o benefício da dúvida, quando não o mérito por antecipação. Não só por parte dos fan boys da Apple.

Claro que não se trata de pura fantasia. O culto a Jobs nasceu de uma trajetória consistente de inovação e ideias inspiradíssimas que funcionam como um teflon sobre sua figura. O máximo que se diz de Jobs, hoje, é que está muito magro. Da Apple, nada. Os fatos são generosos, é verdade, com os dois, e especialmente com Jobs. O sujeito ajudou a criar a computação pessoal, deu um tilt no cinema de animação com a Pixar, revolucionou a indústria da música e virou o mundo dos celulares do avesso. Pode-se sair por aí hoje procurando por um desktop melhor que o iMac, e não se encontra. Um notebook superior ao MacBook Pro, e tampouco se acha. Um smartphone mais competente que o iPhone, e cadê? Isso não quer dizer que a Apple lance só produtos de sucesso. A sua história registra, não por acaso, o fiasco do Newton, um tabletizinho touchscreen lançado em 1993, no período em que Jobs estava exilado da companhia, e decapitado por ele próprio em seu retorno à empresa, três anos depois. Será que o tablet da Apple sem Jobs fracassa, e com ele triunfa?

Desta vez, nem Walt Mossberg, o jornalista do Wall Street Journal que Jobs normalmente privilegia com a entrega antecipada de produtos para testes, teve o tablet nas mãos com antecedência suficiente para dar um depoimento independente no dia da estreia. Sem fontes externas de avaliação, fica difícil separar o que é marketing da Apple e o que é o produto na vida real. Pelas descrições oficiais, trata-se de um iPod anabolizado no tamanho, com inclinações para e-reader — para concorrer especialmente com o Kindle, da Amazon. Aí há uma discussão interessante — o livro em papel está para morrer? —, mas esta é outra história. Até o iPad se materializar e provar que pode tornar a vida das pessoas melhor — como fez o iPhone, por exemplo —, fica difícil acreditar que elas toparão pagar por algo mais que notebooks, netbooks ou smartphones.